25 de dezembro de 2013

Bobagens

Bom, esses dias fui ao hospital. Estou doente e não sei qual moléstia se enquadra no meu caso (nem os médicos, até agora). Consultei-me, fiz exames de sangue, tomei soro na veia, nada demais. Estava na sala de repouso quando alguns resultados saíram, e o parecer do doutor me assolou um pouco: estou com suspeita de ser diabético. Como esperado, tal sentença tirou um tanto meu chão. Não que ter diabetes seja o fim do mundo ou uma espécie de maldição, mas a nossa mente padece (principalmente e comumente, no começo) quando nos deparamos com uma possível mudança drástica na rotina. O novo, logicamente, é desconhecido. E, a princípio, não costumamos usar a criatividade para acharmos uma rota alternativa e seguirmos em frente. Tudo bem, e o que há demais nisso tudo? Sinceramente, nem eu sei. Mas tenho um palpite.

Talvez o ''demais'' esteja na escolha feita: dependentes do acaso ou existentes por si? Esse foi meu ponto de análise ao escutar tal hipótese no hospital.

Já escutei várias vezes na vida as seguintes ideias/frases: "eu não vou ter determinada coisa, pois sou uma pessoa boa e não mereço isso", ''como essa catástrofe aconteceu comigo e não aconteceu com pessoas piores? isso não é justo", ''aqui se faz, aqui se paga'', ''tudo bem, isso será compensado lá na frente, afinal, as coisas precisam entrar em equilíbrio (acho essa última uma das mais interessantes)", e assim vão tantas outras. Pode não ser o nome mais adequado ou criativo, mas eu chamo os autores e pregadores dessas ideias de "juízes da natureza''. Você pode concordar ou não comigo, ok? Seguindo. O meu caso no hospital enquadrar-se-ia MUITO bem em alguma dessas mentalidades, e eu sei quão mais fácil seria lidar com usando alguma delas. É como se a responsabilidade tivesse sido transmitida ao acaso (tirando um peso das suas costas) e, como se não bastasse, o mesmo ainda desse um bônus futuro por você ter se fodido agora. Bacana demais, né? Caso o quadro seja confirmado: eu seguiria a vida como diabético, me adaptando à doença, com a consciência limpa (já que foi tudo obra do destino) E COM UMA CRENÇA INFUNDADA DE COMPENSAÇÃO NO FUTURO! Não vejo coisa boa saindo disso tudo.

Primeiro que esse tipo de crença causaria uma certa letargia criativa na minha pessoa. Eu não precisaria me mover tanto, pois há algo guardado me esperando lá na frente. Segundo que eu cometeria um crime hediondo contra minha pessoa: NÃO ASSUMIRIA MINHA EXISTÊNCIA! Não conceberia uma parte de mim por si só. Pego uma das definições do livro ''Ética demonstada à forma dos geômetras'', de Spinoza, para pincelar o caso. Ele definiu substância ''como aquilo que se concebe por si só, não dependendo do conceito de outra coisa para ser algo''.Explico meu entendimento sobre isso agora. A partir do momento que eu delego a outrém as causas de algo meu, eu não sou mais a causa em si desta coisa. Logo, essa parte não pode ser considerada uma substância ou algo livre. Ou seja, uma parte da minha essência perde-se por mera negligência alienadora! Passo a ser um pouco menos Arthur, PERCO UMA PARTE DA MINHA EXISTÊNCIA! Desculpem, mas isso pra mim é demais.

Enfim, o que quero dizer com isso tudo? A única pessoa responsável pelo meu quadro (e por grande parte das coisas que se passam em minha vida) sou eu, só e somente. Fui eu quem não me cuidei esse tempo todo, a ponto de desenvolver uma forte suspeita quanto à diabetes. Fui eu quem não levou as coisas tão a sério. E eu não devo responsabilizar mais ninguém por conta disso a não ser eu mesmo. Mas, olha, como fazer isso dói e pesa, viu. Não mentirei: é difícil. É como se o impacto de qualquer notícia, seja ela boa ou ruim, viesse umas 10 vezes mais forte! Mas quem disse que existir e viver é uma tarefa fácil e agradável o tempo todo? Uma das artes da vida talvez seja essa: saber absorver os impactos e existir próximo de uma plenitude própria, particular.

Confesso que não me importo tanto com o resultado (saberei amanhã). Importo-me mais com a questão: ser ''feliz'' se perdendo ou existir por si só? Qual é a escolha de vocês?

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